Periodontia · Baseado em evidências

Periodontite e Alzheimer: o que a ciência realmente sabe sobre essa relação?

A saúde da boca e a saúde do restante do organismo não funcionam de forma completamente independente. Nos últimos anos, essa relação passou a receber atenção crescente da pesquisa científica, principalmente em áreas que estudam inflamação crônica, envelhecimento e doenças sistêmicas.

Entre os temas investigados está uma possível associação entre periodontite e doença de Alzheimer. A relação desperta interesse porque pessoas com doença periodontal mais grave aparecem, em alguns estudos, com maior frequência entre indivíduos com comprometimento cognitivo. Mas é importante esclarecer desde o início:

Até o momento, a ciência não demonstrou que a periodontite seja uma causa direta da doença de Alzheimer. Também não existem evidências suficientes para afirmar que tratar a periodontite previna o Alzheimer.

O que existe é uma associação que vem sendo estudada e possíveis mecanismos biológicos que ajudam a explicar por que saúde periodontal e saúde cerebral podem estar relacionadas.

O que é periodontite?

A periodontite é uma doença inflamatória que afeta os tecidos responsáveis pela sustentação dos dentes. Ela se desenvolve a partir de uma interação entre o biofilme microbiano e a resposta de defesa do organismo. Quando esse processo inflamatório permanece ativo, pode ocorrer destruição progressiva dos tecidos ao redor dos dentes.

Entre as manifestações possíveis estão:

  • sangramento gengival;
  • formação de bolsas periodontais;
  • perda do osso de sustentação;
  • mobilidade dentária;
  • e, em estágios mais avançados, perda de dentes.

Atualmente, a Periodontia não é estudada apenas pelas consequências locais da doença. A inflamação periodontal também passou a ser investigada por seus possíveis efeitos sistêmicos.

Qual poderia ser a relação entre periodontite e o cérebro?

Uma das hipóteses estudadas envolve a inflamação crônica. Quando existe periodontite ativa, a superfície interna das bolsas periodontais permanece inflamada. Nesse ambiente, microrganismos, componentes bacterianos e moléculas relacionadas à resposta inflamatória podem alcançar a circulação.

Pesquisadores investigam se exposições repetidas a essa inflamação poderiam contribuir para um estado inflamatório sistêmico.

O que a bactéria Porphyromonas gingivalis tem a ver com Alzheimer?

Outra linha de investigação envolve a Porphyromonas gingivalis, bactéria associada à disbiose periodontal. Pesquisadores já identificaram material relacionado a essa bactéria e às chamadas gingipaínas, enzimas produzidas por ela, em amostras cerebrais de indivíduos com Alzheimer. Experimentos realizados com células e animais apresentaram mecanismos biologicamente possíveis para essa relação.

Entretanto, esse dado precisa ser interpretado com cautela. Encontrar material bacteriano em determinado tecido não prova que a bactéria tenha causado a doença, nem permite determinar necessariamente quando ou de que forma aquele material chegou ao cérebro.

Periodontite causa Alzheimer?

Até o momento, não é possível afirmar isso. Revisões sistemáticas e metanálises encontraram associação entre pior condição periodontal, declínio cognitivo e demência. Uma revisão publicada em 2024 na revista GeroScience, por exemplo, observou maior ocorrência de comprometimento e deterioração cognitiva entre pessoas com doença periodontal.

Mas existe uma limitação importante. Grande parte das pesquisas disponíveis é observacional. Esse tipo de estudo consegue identificar associações, mas tem dificuldade para determinar se uma condição efetivamente causa a outra.

Além disso, diferentes fatores podem afetar simultaneamente a saúde da boca e a saúde cerebral, como idade, diabetes, tabagismo, doenças cardiovasculares, alimentação, escolaridade e acesso aos serviços de saúde. Portanto, associação não deve ser confundida com causalidade.

Tratar a periodontite pode prevenir Alzheimer?

Também não podemos afirmar isso. Uma coorte norte-americana acompanhou adultos mais velhos durante 12 anos e observou menor declínio cognitivo e menor risco de demência entre aqueles que receberam tratamento gengival. É um resultado interessante, mas não constitui prova de prevenção.

Pessoas que procuram tratamento periodontal também podem apresentar melhor acesso à saúde, maior adesão a medidas preventivas e hábitos de vida diferentes.

Por outro lado, uma análise de randomização mendeliana publicada em 2024 não encontrou evidência consistente de que a periodontite causasse atrofia cerebral ou comprometimento cognitivo. Esses resultados aparentemente diferentes ilustram por que a interpretação científica precisa continuar sendo cuidadosa.

A relação entre Alzheimer e saúde bucal pode ocorrer nos dois sentidos

Não é apenas a periodontite que pode acompanhar alterações cognitivas. O próprio comprometimento cognitivo pode dificultar significativamente os cuidados com a boca. Com a progressão da doença, podem surgir:

  • esquecimento da higiene;
  • dificuldade de coordenação;
  • dificuldade para compreender as etapas da escovação;
  • resistência à ajuda de familiares ou cuidadores;
  • redução da salivação provocada por alguns medicamentos;
  • mudanças na alimentação;
  • menor frequência às consultas odontológicas.

Assim, a relação pode ser bidirecional: a inflamação bucal pode contribuir para a carga inflamatória do organismo, enquanto a perda de autonomia dificulta o controle das doenças da boca.

O que muda na prática odontológica?

Mesmo sem comprovação de que o tratamento periodontal possa prevenir Alzheimer, controlar a periodontite possui benefícios claros para a saúde bucal. O tratamento pode reduzir inflamação, diminuir o sangramento gengival, contribuir para a preservação dos dentes, melhorar o conforto, ajudar a preservar a mastigação e favorecer a alimentação e a comunicação.

Em pessoas idosas ou com comprometimento cognitivo, esses aspectos podem ter impacto importante sobre a autonomia e a qualidade de vida.

Por que cuidar da boca antes do comprometimento cognitivo avançar?

Quando existe perda progressiva de autonomia, atividades simples podem se tornar mais difíceis. Por isso, organizar o cuidado odontológico precocemente pode facilitar bastante o acompanhamento.

Avaliações periódicas podem identificar sangramento, cálculo, bolsas periodontais, mobilidade dentária, dor e dificuldades de higiene. Quando necessário, familiares e cuidadores também podem receber orientações para participar da escovação e da higiene interdental.

Mudanças de comportamento também merecem atenção. Agitação, recusa alimentar, alterações no sono ou resistência durante a higiene podem, em alguns pacientes com comprometimento cognitivo, ser manifestações de desconforto ou dor bucal.

Saúde bucal também faz parte do cuidado com o envelhecimento

No Atelier Bucal Odontologia, no Ipiranga, em São Paulo, a avaliação odontológica considera a saúde bucal dentro de um contexto mais amplo. Para a Dra. Ana Carolina Custódio (CRO-SP 89894), com atuação em Reabilitação Oral, preservar a função, a mastigação e a saúde dos tecidos bucais torna-se especialmente importante ao longo do envelhecimento.

Isso não significa atribuir à Odontologia um papel que pertence à Neurologia ou a outras especialidades médicas. Significa compreender que a saúde bucal participa da saúde global do paciente. Em situações que exigem diferentes áreas de cuidado, a integração entre cirurgião-dentista, médico, família e cuidadores pode contribuir para decisões mais seguras e para a manutenção da qualidade de vida.

Periodontite e Alzheimer: qual é a conclusão atual?

Hoje, a evidência científica permite afirmar que existe associação entre doença periodontal e alterações cognitivas. Também existem hipóteses inflamatórias e microbiológicas biologicamente plausíveis que ajudam a explicar essa relação. Entretanto, não está comprovado que a periodontite cause Alzheimer, nem que o tratamento periodontal previna a doença de Alzheimer.

A mensagem mais responsável é outra: cuidar da saúde periodontal faz parte do cuidado com a saúde, a função e o envelhecimento, independentemente de seu possível papel nas doenças neurodegenerativas. Controlar a periodontite não substitui o acompanhamento neurológico nem outras medidas reconhecidas de cuidado cardiovascular, metabólico e cognitivo.

Perguntas frequentes

Periodontite causa Alzheimer?

Até o momento, não há evidência suficiente para afirmar que a periodontite cause diretamente a doença de Alzheimer. Estudos observam associação entre pior saúde periodontal e alterações cognitivas, mas associação não significa causalidade.

Tratar a gengiva pode prevenir Alzheimer?

Não existem evidências suficientes para afirmar que o tratamento periodontal previne Alzheimer. O tratamento da periodontite, porém, possui benefícios estabelecidos para saúde bucal, preservação dos dentes, conforto e função.

Por que a periodontite é estudada em relação ao cérebro?

Uma das hipóteses envolve a inflamação crônica. Pesquisadores estudam se substâncias inflamatórias e componentes bacterianos associados à doença periodontal poderiam participar de mecanismos sistêmicos relacionados à neuroinflamação.

Alzheimer pode piorar a saúde bucal?

Sim. O comprometimento cognitivo pode dificultar a higiene, a alimentação, a percepção de dor e a frequência às consultas, favorecendo a piora da saúde periodontal.

Onde fazer uma avaliação periodontal no Ipiranga?

No Atelier Bucal Odontologia, no Ipiranga, São Paulo, a saúde gengival e periodontal faz parte da avaliação odontológica, com encaminhamento e integração entre os profissionais da equipe conforme as necessidades de cada paciente. WhatsApp: (11) 95569-4428.

Fontes científicas

  1. Revisão sistemática e metanálise sobre doença periodontal e comprometimento cognitivo. GeroScience, 2024.
  2. Dominy SS, et al. Porphyromonas gingivalis in Alzheimer's disease brains: evidence for disease causation and treatment with small-molecule inhibitors. Science Advances, 2019.
  3. Análise de randomização mendeliana sobre periodontite, atrofia cerebral e comprometimento cognitivo, 2024.
  4. Coorte norte-americana de acompanhamento de adultos mais velhos por 12 anos, avaliando tratamento periodontal, declínio cognitivo e risco de demência.
← Voltar ao blog

Avaliação periodontal

Com histórico familiar de Alzheimer ou preocupação com o envelhecimento saudável?

Rua Bom Pastor, 2100, conj. 201–204 · Ipiranga, São Paulo/SP
WhatsApp: (11) 95569-4428 · Tel: (11) 2219-0394 · @atelierbucal

Agendar avaliação

2024 © Todos os Direitos Reservados | Política de Privacidade